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Confiram a entrevista com o filósofo e historiador da Columbia University, Robbie McClintock, refletindo sobre o trabalho nas escolas e a educação do futuro no livro Suficiente: uma especulação pedagógica, com previsão de lançamento no Brasil em agosto

Conheci o professor Robbie McClintock em 2008, logo na primeira semana do meu doutoramento em Filosofia, na Columbia University, Teachers College, na cidade de Nova York. Participávamos semanalmente das apresentações e debates de trabalhos filo-educacionais durante os Seminars.

De voz baixa e calma, com uma fala vagarosa, porém com palavras fortes e marcantes, Robbie é uma referência acadêmica para gerações de historiadores e filósofos da educação que passaram pela 120th Street, no Morningside, em Manhattan. Comigo e com outros amigos de turma, não foi diferente.

Na primavera de 2015, na ocasião da defesa da minha tese, com Robbie sendo membro da minha banca examinadora, nos encontramos em um café na Amsterdam Avenue para iniciar uma conversa sobre a tradução do seu livro Enough para o português. Lembro bem que a única exigência que Robbie me fez foi a de que eu cuidasse muito bem da tradução, já que trata-se de um livro complexo e profundo, e que promovesse a discussão do trabalho, já que trata-se de um livro importante.

Após anos de trabalho, finalmente compartilho com vocês, futuros leitores da vida utópica da escola do futuro, a felicidade de publicar o distinto professor Robbie McClintock ao público brasileiro. Essa conquista só foi possível graças a dedicação da professora e tradutora Eneida Grassi Busto.

Comecemos humildemente, contudo, nos iniciando nesse futuro distante, em que as pessoas confiam coletivamente na autonomia pessoal, com essa maravilhosa entrevista que reproduzimos abaixo.

Antes, porém, aos interessados, estamos com a pré-venda do livro nas versões eBook e papel, com lançamento marcado para 10 de agosto. Ajudem-nos adquirindo o livro antecipadamente e apoiando a possibilidade de aventuras editoriais enriquecedoras, como essa.


Pergunta: A educação é um tema quente, com controvérsias sobre orçamentos, escolas chartes e reformas educacionais, programas como No Child Left Behind (Nenhuma criança deixada para trás) e The Race to the Top (Corrida para o topo), admissões e financiamento ao Ensino Superior, ensino instrumental voltado para exames e provas, equidade e muito mais. Como você aborda tudo isso no livro Suficiente: uma especulação pedagógica?

Robbie: O que eu digo a tudo isso? – “Já é o suficiente!” Eu tive uma longa carreira. Logo após eu entrar na faculdade, os russos lançaram o Sputnik e a preocupação perene com a qualidade da escola se intensificou, e ela ainda não diminuiu. Quando entrei na faculdade, o livro Slums and Suburbs, de Conant, era um best-seller. Por décadas, as escolas estão em estado de reforma em série. E as desigualdades e os problemas que todos criticaram ainda estão aqui. Você percebe o cenário! Tem sido como o filme O feitiço do tempo (Groundhog Day) – a mesma coisa repetidamente. Essas são coisas importantes, não me interpretem mal, mas mais uma agitação, no entanto. Quero dizer, a educação como um tema quente fervilha e queima desde a Segunda Guerra Mundial, com essencialmente as mesmas preocupações, os mesmos alinhamentos de opinião e poucas mudanças reais. Ao longo do tempo, as questões têm sido importantes, mas precisamos de novas maneiras de pensar sobre tudo isso, para romper os limites persistentes. É isso que tento fazer no livro.

Com Suficiente, quero mudar os termos da discussão pedagógica. Precisamos fazer isso para renovar a capacidade de desenvolvimento histórico da educação. E para obter essa renovação na educação, precisamos ir muito além da educação, que não é, afinal, um setor da vida separado, mas um elemento importante na estratégia de modernidade adotada nos últimos 500 anos. A educação moderna, digo da Educação Básica até o Ensino Superior, é um sistema global maduro, altamente otimizado, apesar dos críticos, e está atingindo seu limite sistêmico. Precisamos de um novo sistema – aqui, ali, em toda parte.

Pergunta: É por isso que você define o livro como se fosse escrito daqui a 150 anos, olhando para um futuro em que os valores dominantes sejam muito diferentes daqueles que estão em vigor?

Robbie: Sim, tento sugerir um possível futuro para despertar a imaginação do leitor. É difícil ver a nós mesmos e sentir os limites inerentes à maneira como fazemos as coisas sem imaginar maneiras alternativas de ação na realidade. O utopismo ficou com uma má reputação, e todos nós perdemos com isso. Por isso, pedi aos meus autores, no futuro, que dêem pistas sobre seu mundo ao compartilharem comentários conosco, enquanto descrevem e analisam os desenvolvimentos em nosso mundo.

Pergunta: A ficção científica e a cultura popular colocam inúmeros futuros diante de nós, a maioria deles distópicos. Como você decidiu como seria a vida em 2162?

Robbie: Para mim, essa é a parte divertida, a parte fácil. O futuro que descrevo em Suficiente não é um futuro previsto. É um futuro imaginado, construído de maneira simples e gratificante. Como historiador cultural, fico surpreso com o modo como os intérpretes de agora avaliam quem-era-quem e o-que-era-o-que de maneiras que diferem acentuadamente das avaliações predominantes no passado. No meu trabalho como crítico educacional e inovador, me senti distintamente marginal. Muito poucos levam minhas ideias a sério, e muitos não as consideram nem relevantes nem praticáveis. Eu não sou mainstream. Para retratar um futuro imaginário, eu me entrego a satisfação de alguma desejos. Simplesmente esboço um futuro em que os historiadores culturais olham de seu ponto de vista futuro e descobrem que ideias como a minha, apesar de sua atual marginalidade, têm um significado central para o surgimento deste mundo futuro.

Em que tipo de mundo as pessoas com minhas ideias e valores se sentiriam à vontade em casa? Essa é a pergunta fácil. Isso leva às mais difíceis. Primeiro, como os princípios atuais, cujas operações geraram o mundo atual, diferem daqueles que gerariam a alternativa postulada? E então, podemos imaginar esses princípios alternativos deslocando os que estão atualmente em funcionamento por algum caminho histórico possível? “Merda acontece” é o título do livro escrito pelos futuros historiadores dentro do livro Suficiente, meu livro. É nesse escrito que eles abordam essas questões examinando, em 2162, as reflexões educacionais de um dissidente, por volta de 2010–2012.

Pergunta: Vamos ficar com esta pauta futurista. Você confere um título surpreendente a esse livro dentro do seu livro: “Merda acontece”. Por quê?

Robbie: A frase vem de um adesivo de carro do final do século XX e implica que muito do que acontece não é previsível nem explicável. Quando a merda acontece, as pessoas não ficam impotentes, mas seu poder aciona suas capacidades de lidar no momento, agindo de maneira inteligente sobre o que está acontecendo. Meus futuros historiadores pensam isso de maneira prudente e com bom senso, e, portanto, eles o usam como o título de seu trabalho. Espero que a análise deles dê uma compreensão sofisticada e bem fundamentada de como as pessoas podem lidar melhor com as circunstâncias no calor do momento.

Pergunta: Você começa apresentando seus futuros historiadores e sobre quem eles estão escrevendo no futuro, Rob Carlyle, que nasceu, eu deduzo, em 1938, no leste da Pensilvânia, e que morreu por volta de 2035 em Buenos Aires, emigrando para lá da cidade de Nova York alguns anos antes. Ao chamar a primeira seção do livro, “Situando a pergunta”, o que você considera a pergunta?

Robbie: Não esqueça que o capítulo envolve situar a pergunta e a pergunta em si. O capítulo situa os leitores em relação ao futuro e aos historiadores. O mundo deles é diferente, no qual as pessoas valorizam a estabilidade em relação às mudanças, os bens comuns em relação ao mercado e o suficiente – nem muito pouco nem demais – em relação a ter mais. E o capítulo situa os leitores e os futuros historiadores tanto a respeito da figura de Rob Carlyle, o representante do pensamento atualmente marginal que está destinado a se tornar mainstream, quanto ao pensamento atual de hoje que se tornará marginal no imaginário do século XXI. Já a pergunta surge quando os historiadores começam a examinar as ideias de Carlyle. Ele aborda o modo como experienciou a maioria das discussões que equiparam a educação ao trabalho nas escolas, nas faculdades e nas outras agências de ensino, e que ignoram como as pessoas reais experienciam sua educação vivida durante toda a vida. Os futuros historiadores se perguntam por que Carlyle criou problemas ao criticar a fusão da educação com a escolaridade, pois, para eles, é senso comum que trata-se de coisas diferentes. Por conseguinte, eles terminam o capítulo estabelecendo a pergunta: “Por que as pessoas acharam plausível equiparar a educação ao trabalho nas escolas?”

Pergunta: Este primeiro capítulo também estabelece manobras estilísticas incomuns. Como autor, você assume o disfarce de vários colaboradores imaginados, como Commoner, Digger e Sojourner. E eles escrevem sobre o pensamento e o trabalho de Rob Carlyle, que você imaginou também…

Robbie: Sim, o ideal é que o leitor preste atenção em quem está dizendo o quê. Commoner é o principal porta-voz do futuro. Digger é seu aprendiz ocasionalmente impertinente, irônico, mas diligente e inteligente. Sojourner é o leitor comum do futuro, interpondo de vez em quando perguntas e pontos de vista ingênuos, mas importantes. Carlyle e suas ideias, é claro, carregam todo o trabalho, e ele é imaginário, mas talvez menos do que os outros, pois ele é basicamente meu alter ego, um “Maxi-Me”, para inverter um conceito de Austin Powers.

Pergunta: Seus colaboradores do futuro interporão, no livro, muitas notas de rodapé estendidas, fazendo um comentário contínuo sobre o texto. Por quê?

Robbie: Muitas notas de rodapé longas podem desestimular alguns leitores, reconheço. Entretanto, o meu intuito é desacelerar os leitores. A leitura rápida é boa para algumas coisas, absorvendo informações. Porém, não é boa para sustentar uma troca ponderada sobre ideias difíceis. Prefiro ter a atenção total de menos leitores pacientes do que a “passagem de olhos” de muitos. Acho a prosa filosófica maravilhosamente suavizada e polida – o trabalho de George Santayana ou Henri Bergson me vem à mente – difícil de ler com atenção. Em Suficiente, espero que as notas de rodapé convertam o texto em um tipo de diálogo e façam com que os leitores reavaliem constantemente o que foi dito em todos os argumentos, para se situarem em uma discussão complicada. Um leitor apressado sempre pode pular as notas e passar os olhos no resto.

Pergunta: Acho difícil indagá-lo sobre os sete capítulos seguintes que compõem o livro “Merda acontece”, um após o outro, pois eles não parecem exatamente se encaixar em uma sequência linear…

Robbie: Excelente observação! Ao escrever Suficiente, quero mostrar que a educação, e muito mais importante a vida, não resulta de uma sequência temporal ao sabor de causas que agem sobre o aluno em tempo linear, um após o outro. Em vez disso, emerge das interações recíprocas que ocorrem entre o aprendiz e a totalidade das circunstâncias coexistentes no imediatismo da experiência de vida. Cada capítulo explora, de maneira distinta, esse contraste entre ação sequencial, causal, e interação simultânea, recíproca. Todos eles revelam uma compreensão cumulativa da experiência emergente, e não uma progressão conclusiva.

Pergunta: Mas, ao chamar o livro de Suficiente, você parece estar argumentando, parece tentar convencer os leitores a concluir em favor de uma mudança de valores, a buscar o suficiente, e não mais do que isso…

Robbie: Possivelmente. Eu preferiria declarar isso de maneira mais cautelosa. Sim, espero que os leitores entendam que uma mudança de valores pode e deve ocorrer. Porém, duvido que um escritor possa convencer os leitores, como indivíduos ou como membros de grupos, a mudar seus valores. As pessoas não escolhem conscientemente seus valores como uma consequência passiva desta ou daquela consideração, nem mesmo como uma resposta a uma motivação forte e palpável, tipo “cenoura ou chicote”. Merda acontece – não podemos implementá-la; não podemos implementar o que ocorre através do fluxo de interações recíprocas entre um eu ativo e o mundo. Tentar causar uma mudança nos valores como consequência sequencial de nossas ações produz principalmente ironias contraproducentes.

Pergunta: Portanto, as seções em “Merda acontece” são variações em um único tema. Poderíamos, então, afirmar que o tema a ser compreendido é como que a educação, e outros aspectos da vida, não resultam de causas sequenciais, mas ocorrem através de interações simultâneas e recíprocas que constituem o imediatismo da vida?

Robbie: Isso explica bem, embora a afirmação não faça o leitor entender a ideia, pois a compreensão é uma daquelas coisas que acontecem; o entendimento acontece, ou não, quando refletimos sobre a frase. Essas seções se movem de uma para a outra, à medida que o ponto de vista sobre o tema muda, começando com a atenção primária à causalidade e terminando com a reciprocidade como a principal preocupação.

Pergunta: Falamos sobre como o capítulo 1 situa a questão. Essa questão não é se as pessoas estavam certas ou erradas ao confundir educação com o trabalho nas escolas, mas por que elas achavam plausível pensar assim. Como você explica o pensamento delas?

Robbie: Tal pensamento não se aplicava apenas a educação. O capítulo 2, “Escolaridade na Era do Emparedamento”, mostra como as ideias que fundem educação e escolaridade fazem com que a educação pareça uma questão de ações causais sobre aprendizes e alunos que ocorrem em locais e horários fechados. Os emparedamentos projetam limites em torno de objetos selecionados para estruturar a ação causal que ocorre dentro desses limites. Os emparedamentos tem sido o princípio primário de pensamento e ação na era moderna, aproximadamente entre os anos 1500 a 2000, não apenas na escola, mas na maioria dos aspectos da vida pública – política, economia, sociedade e cultura. As práticas nos espaços emparedados têm sido imensamente produtivas, entretanto, são construções históricas contingentes que podem estar esgotando suas potencialidades criativas.

Pergunta: Existem maneiras de explicar o que acontece na experiência histórica para além de um explicação causal das ações relevantes?

Robbie: Sim, e uma delas está ganhando significância histórica substancial. O capítulo 3, “Acontecendo”, usa as “analogias da experiência” de Immanuel Kant para explorar a diferença entre a ação causal de uma coisa na outra no tempo sequencial e as interações recíprocas entre as coisas que coexistem no tempo e no espaço. A experiência existencial vivida no presente histórico compreende todos os tipos de interações simultâneas que ocorrem sem uma causa manifesta determinando-as inequivocamente. À medida que essas interações ocorrem, elas definem redes dinâmicas e ilimitadas. Alguém que contempla as interações simultâneas de coisas coexistentes não pode impor com êxito o emparedamento, projetando limites na rede de coexistência, abstraindo isso como causa e aquilo como efeito. A segunda analogia de Kant, sobre conexões causais no tempo sequencial, fez muito para fortalecer o raciocínio causal dominante ao longo da era moderna, com sua dependência no emparedamento do pensamento prático. Mas a terceira analogia de Kant, sobre interações recíprocas que ocorrem entre coisas que coexistem no tempo e no espaço, está se tornando extremamente pertinente e prática para todas as atividades de rede que ocorrem em nosso tempo.

Pergunta: Sem dúvida, mas até onde isso nos levará? Veja todas as estruturas de poder causal em nosso mundo.

Robbie: O capítulo 4, “Ceticismo e fé razoável”, rejeita os esforços para prever o que vai e o que não vai acontecer e recomenda uma abertura às possibilidades. A longo prazo, o registro histórico documenta muitas mudanças básicas na maneira como as pessoas pensam sobre suas vidas. Essas mudanças ocorreram e não podemos explicar conclusivamente o que as causou, mesmo com o benefício da retrospectiva. Ainda menos podemos prever como e por que uma mudança poderá ocorrer no futuro. Mas essa mudança é inteiramente possível, e essa possibilidade inclui a possibilidade de as pessoas pensarem em suas experiências acontecendo em uma rede global de espaços urbanos e bens comuns compartilhados e inclusivos, em vez de em estados-nação contíguos e limitados, com trocas de bens e propriedades privadas limitadas pelo mercado. Ressurgências, como a Revolução de Veludo ou a Primavera Árabe, surpreendem quase todo mundo, inclusive especialistas astutos, porque ocorrem através de uma emergência da complexidade, com relação a qual a previsão – a extrapolação da ação causal – é irrelevante.

Pergunta: Aonde você vai a partir daí? Que essa mudança significativa é possível parece um “ainda-não” que o utópico marxista Ernst Bloch contemplou. Nós devemos pegar nossa expectativa de mudança e “sentar e esperar”?

Robbie: Não – use ou perca. Coisas inanas estão sujeitas a previsão; eus autônomos e vitais formam propósitos e buscam controlar o que acontece para realizar possibilidades. O capítulo 5, “Emergência educacional”, descreve a forma de vida como interações recíprocas sustentadas por um locus vivo de controle com suas circunstâncias, um Significado (Umwelt), um mundo ambiente com o qual o locus de controle coexiste. Essa descrição culmina situando a educação em experiências complexas e emergentes. Os estudantes – agentes autônomos e multifacetados – formam-se tentando controlar o que está ocorrendo em diversas redes interior-externas, interiormente neural e exteriormente cultural. Minha compreensão dessa auto-realização baseia-se fortemente no biólogo alemão do início do século XX, Jakob von Uexküll, cuja influência tem aumentado. Reconhecer o lócus da educação como emergência educacional não mudará os resultados causais de políticas públicas e programas educacionais. Pode, no entanto, incentivar as pessoas e os públicos a se comportarem, resolutamente e de forma expansiva, como agentes autônomos diante das pressões determinísticas.

Pergunta: Você então escreve sobre um lugar para estudar. Como isso difere das escolas e outras agências de ensino?

Robbie: Bem, um lugar para estudo deriva sua importância de tudo o que foi dito sobre a diferença entre os lugares emparedados e o que ocorre na vida vivida – a vida, não um lugar fechado, é o local para estudo. O capítulo 6, “Um lugar para estudar”, retoma a relação entre educação e escolaridade. As restrições das escolas frequentemente trabalham contra a dinâmica interativa da auto-formação na plenitude da vida. Os esforços para apoiar efetivamente as interações educacionais dos alunos fornecerão amplo acesso, dia após dia, em todos os lugares, a recursos culturais, dando forma ao autocontrole dos alunos, com feedback imediato e variado, à medida que eles interagem com as circunstâncias. Através da educação, um estudante, como pessoa, sente como controlar inúmeras capacidades, cada uma descrita por um verbo de ação humana. Nossos esforços para controlar o que ocorre são contingentes, geralmente inadequados, mas, por mais contingentes e, em última análise, mortais, são a realidade vital de nossas vidas. Cada um deles afirma a dignidade e as prerrogativas da vida através da autonomia inalienável da auto-formação.

Pergunta: Isso é comovente, entretanto, oferece um senso de direção? A “autonomia inalienável da auto-formação” não é algo realmente relativista?

Robbie: Talvez – se você acredita que esse propósito e valor devem provir de alguma fonte fora de nós, uma que transcenda o domínio da mera vida mortal. Mas viver é sofrer as consequências. Autonomia não é relativista no sentido de que nada faz diferença. O que é melhor e o que é pior na conduta da vida é crucial para os agentes autônomos. Portanto, o capítulo 7, “Justiça formativa”, pergunta como uma pessoa deve gerenciar sua educação emergente, uma vez que ocorre em interação com os recursos culturais e humanos de seu mundo. Platão, especialmente no escrito A República, avançou um profundo entendimento da justiça formativa como um senso interior que cada pessoa possuía, com o qual ela poderia avaliar e guiar seus impulsos apetitosos através do orgulho e da honra, como formas de participação positiva, e o raciocínio crítico, como formas de participação negativa. Por meio da justiça formativa, Platão avançou um compromisso interno com um regime pedagógico de autocontrole, ao invés de um plano coletivo para um regime político.

Pergunta: Mas como um regime de autocontrole ganha um sentido de propósito?

Robbie: Essa é uma ótima pergunta, frequentemente feita! E as respostas acabam mal porque as respostas reais são existenciais, não discursivas, mas recursivas. O que eu quero dizer é que o autocontrole orienta, da melhor maneira possível, o regime de autocontrole. O capítulo 8, “Satisfação”, elabora um pouco essa recursão e culmina o esforço, ao longo do livro, na formação de conceitos, diferenciando claramente o papel pedagógico da previsão e da possibilidade. As previsões inibem e distorcem o trabalho educativo emergente de um aluno, pois, por si só, não levam em consideração a sensibilidade interior que permite ao ser vivo virar forças determinantes contra si mesmo, negando o resultado previsível. Capacidades vitais emergem na experiência de vida de uma pessoa, à medida que ela apreende a possibilidade de exercer controle autônomo nas interações que ocorrem em sua vida. Julgamos com um senso interior, semelhante ao senso de equilíbrio, o que frustrará o controle e o que poderá contrariar sua perda, oscilando ao longo da vida. Cada um de nós é mortal e nossa luta pela auto-manutenção é contingente. A realização ocorre, não através de algum sucesso absoluto, mas através de nosso julgamento, realização e exercício de nossas capacidades totalmente até os limites de nossos potenciais.

Pergunta: Deixe-me ver se compreendi suas ideias centrais. Todas as partes do “Merda acontece” contrastam princípios de causalidade e reciprocidade. Em nosso mundo contemporâneo, os esforços para a ação causal dominam o que fazemos, não apenas na educação, mas também na economia, na política e nas principais profissões. Em outro mundo, talvez um possível, as pessoas participarão principalmente, na conduta de suas vidas, de interações recíprocas contínuas que ocorrem em uma rede de circunstâncias vitais. Em um mundo de interação recíproca, a dinâmica da auto-manutenção e do autocontrole assume grande significado pessoal e público. Devemos pensar neles como o lugar e os meios pelos quais as pessoas autônomas se formam.

Robbie: Você conseguiu. Por toda a parte, peço uma visão renovada – pessoal, formativa, quase anárquica, mas de maneira construtiva. Não recapitularei aqui – esse é o propósito de Suficiente.

Pergunta: Você confia fortemente na emergência espontâneo. Isso realmente vai ajudar?

Robbie: Eu preferiria dizer emergência autônoma. E acredito que todos participam, uma participação autônoma. Duvido que as elites contemporâneas combinem a coerência e a firmeza necessárias para gerar um senso de visão para as coletividades de massa. Mas por que devemos esperar que eles façam isso por nós? Pedimos muito pouco a nós mesmos como atores em potencial no mundo, ignorando o possível na busca do previsível. Isso é desprezível. Em que se resume todo a agitação sobre a escolaridade, com sua conversa sobre padrões mais altos de qualidade, competitividade e responsabilidade, levando à melhores empregos e à uma economia mais competitiva? Resume-se a “Plasticidade”, como diz o diálogo revelador no filme A primeira noite de um homem (The Graduate). Os jovens ainda estão encarando os futuros previstos com a expressão de tédio desnorteado de Dustin Hoffman – um olhar vago de “Sério? … Ah, tanto faz”.

Os educadores precisam inspirar os jovens com uma visão realmente dura, com uma possibilidade desafiadora, improvável e imprevisível, talvez um urbanismo universal radical do século XXI, um chamado para suplantar o mercado por bens-comuns, o Estado-nação por cidades-Estado globais. E quem são esses educadores? Os próprios jovens. Alguns movimentos estão despertando um senso de possibilidade. Eles exemplificam o poder inesperado da emergência autônoma. Veja as fontes da mudança histórica – Praça da Paz Celestial, Revolução de Veludo, Primavera Árabe, OWS (Occupy Wall Street). O rumor de que os ocupantes não tinham um programa perde exatamente o ponto! Eles quebraram mundos previsíveis com um repentino senso de possibilidade, ao qual o discurso convencional de programas e políticas não se refere.

Isso realmente vai ajudar? Não no sentido político – mas esse pode ser o poder histórico da emergência espontânea. Possibilidades improváveis ​​nos movem; previsibilidade nos deixam frios.

O filme de Mike Nichols, de 1967, "The Graduate", mostra Benjamin Braddock, o herói descontente de 21 anos de idade, interpretado por Dustin Hoffman, está em uma festa que seus pais fizeram por sua formatura na faculdade. Um amigo dos pais de Ben, um homem chamado Sr. McGuire, leva Ben de lado na festa e diz que tem uma palavra como conselho para ele, apenas uma palavra - e a palavra é “plástico".
O filme de Mike Nichols, de 1967, “The Graduate”, mostra Benjamin Braddock, o herói descontente de 21 anos de idade, interpretado por Dustin Hoffman, está em uma festa que seus pais fizeram por sua formatura na faculdade. Um amigo dos pais de Ben, um homem chamado Sr. McGuire, leva Ben de lado na festa e diz que tem uma palavra como conselho para ele, apenas uma palavra – e a palavra é “plástico”.

Pergunta: De várias maneiras, Suficiente me parece um livro muito improvável. Por exemplo, é incomum a forma como integra a discussão da educação com a da política, da economia, da geografia, da sociedade, da comunicação e da tecnologia…

Robbie: Improvável mesmo. Eu não pretendia escrevê-lo – apenas aconteceu enquanto tentava fazer outra coisa, redigir uma revisão relativamente curta. Os diferentes assuntos integrados se uniram porque são apenas nomes diferentes para aspectos significativos da experiência histórica, vividos como um todo complexo. Testamos se estamos entendendo algum deles, vendo se nossa compreensão de um deles dá sentido aos outros. As múltiplas verdades do pós-modernismo são boas, pois certamente existem muitas, muitas maneiras de pensar sobre a experiência humana. Mas cada uma dessas múltiplas verdades deve tomar a medida, não apenas de alguma parte, mas do todo também.

Pergunta: Como você fez sua pesquisa para este livro?

Robbie: Pesquisa? – ninguém pesquisa um livro que simplesmente acontece.

Pergunta: É verdade, mas você utiliza uma ampla gama de recursos, geralmente com uma profundidade considerável…

Robbie: Exatamente. Ele se baseia em uma vida de estudos sérios. Tentei recorrer a ela de maneiras que os leitores acharão acessíveis e esclarecedoras.

Pergunta: Fico feliz que você tenha tentado, mas será interessante ver como os leitores recebem o seu trabalho. Suspeito que poucas pessoas, até mesmo poucos biólogos, já ouviram falar de Jakob von Uexküll, mas você dá a ele um lugar importante em “Merda Acontece”. Você não corre o risco de parecer excêntrico?

Robbie: Uexküll é real, como também o risco de parecer excêntrico. Uexküll teve considerável influência sobre importantes pensadores europeus do século XX, mais recentemente Gilles Deleuze, mas antes disso Ernst Cassirer, Martin Heidegger, José Ortega e Gasset e outros. Em 2008, a SUNY Press publicou um estudo sobre a sua influência e, em 2010, a University of Minnesota Press lançou um dos livros de Uexküll, recém-traduzido. Além disso, ele começou a influenciar a neurociência e a robótica atuais. E eu já experimentei o perigo de parecer excêntrico quando encontrei o Uexküll pela primeira vez há muitos anos, em meados da década de 1960, quando comecei a pesquisar minha tese de doutorado sobre Ortega. Em uma das últimas disciplinas que fiz, enviei um bom manuscrito, apontando como Uexküll antecipou muito da teoria cibernética proposta por pessoas como Norbert Weiner e Warren S. McCulloch. O meu professor, especialista em História intelectual européia moderna, recusou-se a aceitar meu manuscrito porque nunca tinha ouvido falar de Uexküll, e não pôde avaliar minhas alegações, talvez pensando que eu as tinha inventado. Claro, eu estava chateado, mas ri por último. No impulso, enviei o escrito ao The American Scholar, um jornal acadêmico de destaque, que acabou tendo uma edição especial sobre a revolução eletrônica em andamento. Assim consegui minha primeira publicação, em 1966, bem acompanhado, juntamente com ensaios de Marshall McLuhan, Lynn White Jr., Jacob Bronowski, Herbert A. Simon, Richard Hoggart e muitos outros dignitários. Excêntrico para alguns – oportuno para outros!

Robbie McClintock é um dos pioneiros da aprendizagem tecnológica. Na foto, ensina adolescentes das escolas públicas de Nova York.
Robbie McClintock é um dos pioneiros da aprendizagem tecnológica. Na foto, ensina adolescentes das escolas públicas de Nova York no início da década de 1990.

Pergunta: E as suas discussões sobre Kant? Elas vão muito além de passar referências. Isso estreitará seu público?

Robbie: Como pensava um historiador da educação, encontrei uma variedade de obras importantes em filosofia, essenciais para a compreensão de ideias educacionais em períodos-chave. Por exemplo, a Fenomenologia do Espírito de Hegel é ela própria uma história muito difícil e muito esclarecedora da auto-educação da capacidade humana voltada à atividade cultural. O mesmo vale para as três críticas de Kant, que compreendem a capacidade construtiva do pensamento humano. Desde o início, estudei Kant de perto enquanto trabalhava com Ortega e outros pensadores do século XX – todos eles tinham origem neo-kantiana. Desde então, de vez em quando eu oferecia um curso de um ano sobre Kant e Hegel para estudantes avançados – leituras detalhadas das Críticas de Kant no outono e da Fenomenologia de Hegel na primavera. Então, enquanto escrevia Suficiente, o meu Kant estava pronto. Seu pensamento é realmente central para o que discuto, e trabalho duro para apresentar suas ideias de uma maneira sólida e compreensível. Eu acho que muitos escritores refinam demais, não querendo desencorajar os leitores em potencial. É uma quebra de compromisso, na verdade. Bons leitores ficarão felizes com o material difícil se um autor esclarecer sua relevância e sua expressão for lúcida.

Pergunta: Muito bem. Mas você parece reunir muitas outras ideias de maneiras que não ocorreriam para a maioria das pessoas – teorias dos sistemas complexos, diferentes formas de mapeamento e teoria urbana, linhas de pensamento econômico e social e algumas ideias distintas sobre Platão e o que você chama de justiça formativa…

Robbie: Não esqueça que eu não sou mais um jovem. Fui fortuitamente privilegiado, capaz de perseguir diversos interesses intelectuais por mais de 50 anos. E eu tenho uma boa memória, pelo menos para tudo isso que estamos falando. Embora seja um livro improvável, Suficiente se baseia em muitos anos de minha experiência intelectual e, nesse sentido, é uma espécie de autobiografia intelectual, incompleta e imprevisível.

Pergunta: Mas a amplitude e profundidade combinadas em Suficiente tornam isso muito difícil? Os leitores podem largar o livro, exclamando “Demais!” Quem você acha que serão seus leitores?

Robbie: Essa é uma pergunta desafiadora. Posso responder diretamente, dizendo que espero que meus leitores sejam pessoas que queiram pensar de maneira séria e abrangente sobre educação e vida histórica. Mas você está realmente perguntando se esses leitores em potencial existem e se posso alcançá-los. Eu não sei. Sinceramente, tive pouco sucesso em fazer o livro interessar a grandes editoras de destaque nos EUA, acadêmicas ou comerciais, em minha proposta do livro. Atualmente, as análises de previsibilidade pesam muito aos editores, com o dinheiro escasso e a destruição criativa ameaçando a periferia digital. Como contrapeso, pouco agora impede um autor que queira levar seu trabalho diretamente para o mercado. A auto-publicação tornou-se fácil. Mas revisar e discutir o trabalho sem a impressão de uma editora de prestígio é um desafio. Se um livro diz algo original e importante, e fundamenta com substância e com estilo, acho possível ultrapassar o limiar da atenção do público.

Suficiente pode fazer isso. Muitas pessoas estão ansiosas para se envolver em uma reflexão fundamentada em princípios básicos na conduta da vida. Suficiente irá atingir esse público? Não posso prever, mas estou pronto para procurar uma resposta, aberta à surpresa pelo inesperado. Diante da incerteza, devemos valorizar especialmente o possível, não o previsível. Receio que muitos escritores acabem não dizendo o que pensam porque sentem que é imperativo produzir um livro que seja um sucesso previsível. Alguém da minha idade começa a perceber que o dito popular do mundo acadêmico, “publicar ou perecer”, aponta para realidades mais profundas para além da simples mensagem de prudência aos jovens acadêmicos. Um escritor sério, como pessoa, incorpora crenças e valores, e deseja dar a eles uma vitalidade cultural que vai além da influência imediata do escritor, além do espaço e do tempo. O espírito da publicação acadêmica e comercial favorece aqueles que podem alcançar previsivelmente um nicho especializado no presente, mas esse espírito está entrando rapidamente em fluxo. As previsões vacilam. Estou pronto para testar o possível.

Pergunta: Justo o suficiente. Obrigado, Robbie!


Sou pai do Lorenzo e do Lucca, fundador e editor na Poiesis, professor universitário na Unimar e autor do livro "Com Ítaca na mente: em busca dos sentidos do ensino"

One Comment

    • Carmen E.

    • 5 meses ago

    Pelo que entendi esse livro fala sobre como os historiadores do futuro irão olhar pra trás e se indignarem com a desigualdade que assola a nossa sociedade HOJE. Super interessante. Parabéns e obrigado por pensar nosso futuro.

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