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A Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (TALIS 2018 – Teaching and Learning International Survey) da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) é uma pesquisa internacional, de larga escala, que analisa professores, líderes escolares e o ambiente de aprendizagem nas escolas.

Os resultados da pesquisa são divulgados através de um relatório, no qual são analisadas as respostas dos professores da Educação Básica e dos gestores escolares em escolas públicas e privadas.

Entretanto, da gama de apontamentos descritos no documento, vou destacar aqueles que me chamaram mais atenção, como:

  1. o bom relacionamento social no ambiente escolar,
  2. a falta de metodologias ativas de ensino e aprendizagem, e
  3. a alta demanda por qualificação na área da Educação Especial.

Experiências de relacionamento social

Primeiramente, destaco que, em termos de ambiente de sala de aula, as relações entre alunos e professores são positivas em geral. Isso é comprovado com 94% dos professores no Brasil concordando que alunos e professores geralmente se dão bem uns com os outros.

No entanto, 28% dos diretores relatam atos frequentes de intimidação ou bullying entre seus alunos, o que é superior à média da OCDE (14%).

Gestão e práticas pedagógicas

Entre as práticas empregadas na escola, que o TALIS 2018 perguntou aos professores, aquelas que visam melhorar a gestão de sala de aula e a clareza de instrução foram amplamente mencionadas pelos professores brasileiros.

Por exemplo, no Brasil, 87% dos professores relatam que precisam usar tempo de aula para acalmar alunos mais perturbadores, em comparação a média da OCDE, de 65% dos professores. Além disso, 89% dos respondentes relatam que precisam explicar frequentemente como os tópicos novos se relacionam com os tópicos de aulas passadas, sendo que a média da OCDE é de 84%.

Por conseguinte, essas duas variáveis justificam uma terceira, cujo dado chamou atenção da mídia especializada em educação. Isto é, durante uma aula típica, os professores brasileiros disseram que gastam 67% do tempo de aula com ensino e aprendizado reais, que é inferior à média da OCDE, de 78%.

Certamente, eu não vejo esse vai-e-vem pedagógico (voltar à conteúdos passados, com fins a dar significado ao conteúdo presente), como um problema – certamente os alunos perturbadores são um problema.

Com efeito, basta uma olhada rápida na Introdução do meu livro, “Com Ítaca na mente: em busca dos sentidos do ensino” (acesso disponível aqui) para saber as minhas justificativas. Inegavelmente eu discuto que uma das principais características éticas da docência é a paciência e a disposição em recomeçar.

Como resultado, o recomeçar é paradoxalmente um ato contínuo, de cunho estético, que retarda, aterroriza e problematiza o progresso curricular dos alunos, mas também dos professores – e, sendo uma característica ética, também deve influenciar os gestores da educação.

De qualquer modo, retornando a pesquisa, outro dado sobre prática escolar, revelado no relatório TALIS 2018, me chamou a atenção; esse sim, negativamente.

Inovação

Veja bem, o relatório apontou que as práticas pedagógicas que envolvem a ativação cognitiva do aluno, que são conhecidas por serem importantes para a sua aprendizagem, ainda estão pouco difundidas.

Afinal, entre todos os países da OCDE, cerca de metade dos professores reportaram o uso de algum desses métodos. No Brasil, especificamente, apenas 40% dos professores relataram pedir freqüentemente aos alunos que assumissem um protagonismo na resolução de tarefas complexas.

Isso envolve, primordialmente, as seguintes habilidades:

  • entendimento global e síntese de problemas,
  • refletir por um período longo de tempo,
  • aplicar conhecimentos incorporados em novos contextos ou situações-problema,
  • criar significados originais na resolução de problemas,
  • explicar aos pares como resolveram certos problemas,
  • justificar o uso de métodos,
  • entre outras habilidades.

Estranha a baixa utilização de métodos ativos, uma vez que, no geral, a grande maioria dos professores e gestores escolares vê seus colegas como abertos a mudanças; e suas escolas como lugares que têm capacidade de adotar práticas inovadoras.

Surpreendentemente, no Brasil, 80% dos professores também relatam que eles e seus colegas se apoiam mutuamente na implementação de novas ideias. Isso não é significativamente diferente da participação média, entre os países da OCDE, no relatório TALIS 2018 (78%).

Educação especial

De acordo com o relatório, embora 40% dos professores participam, em média, de atividades de desenvolvimento profissional, incluindo o treinamento com práticas escolares voltadas para alunos com necessidades especiais, a demanda por mais treinamento nessa área ainda é extremamente alta entre os professores (58% no Brasil, comparado a 22% na OCDE).

Nota pessoal

Em 2017, como secretário de Educação no município de Marília, dei autonomia para a equipe técnica da área da Educação Especial. A equipe, liderada pela educadora Dr. Sabrina Alves Dias, deveria renovar as estruturas municipais existentes e os procedimentos de atendimento, visando a contínua melhoria do serviço e a qualidade de vida dos alunos e familiares.

Para encurtar a história, fechamos o ano muito satisfeitos com o trabalho árduo desenvolvido no atendimento às crianças com demandas especiais. De quebra, conquistamos o reconhecimento do Estado de São Paulo, com um dos projetos iniciados naquele ano em Marília sendo destaque no Prêmio Ações Inclusivas para Pessoas com Deficiência.

É como aponta o subtítulo da pesquisa TALIS de 2018 (Volume 1): “Professores e gestores escolares como aprendizes ao longo da vida”. Seja na educação especial, seja na aprendizagem ou no ambiente escolar, a humildade de se colocar como aprendiz ao longo da vida deve ser incorporada pelos professores e pelos gestores da educação, em um compromisso sublime de respeito a educação.

Sou pai do Lorenzo e do Lucca, fundador e editor na Poiesis, professor universitário na Unimar e autor do livro "Com Ítaca na mente: em busca dos sentidos do ensino"

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