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Esqueça os objetivos comuns que fazem pais e professores valorizarem a leitura. É preciso um novo sentido que desenvolva o amor à leitura: amar o aprender!

Pais e professores devem se ater para dar liberdade as crianças e aos jovens na hora de escolher um livro qualquer para uma atividade de leitura silenciosa, Mesmo assim, para a maioria de nós, fica a sensação de que estamos forçando uma tarefa desprazerosa e difícil nas suas rotinas educacionais.

Por isso que há vários incentivos conhecidos quando falamos em desenvolver a atividade de ler: como os registros de leitura nas escolas de Ensino Fundamental e Médio, as recompensas no boletim e a autorização para ficar acordado 30 minutos depois da hora de dormir caso a criança ler um livro de verdade.

Mas uma coisa é aplicar mecanismos de incentivo externo para fazê-los ler. São válidos? Sim, afinal de contas, algumas variáveis estão presentes nesse contexto:

  • as demandas por maior alfabetização diante do desafio de emprego no século 21,
  • as notas maiores nos boletins escolares, e
  • as médias gerais para os índices do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica),

Entretanto, outra coisa, bem diferente, é testemunhar a criança ter vontade própria de fazer uma leitura. Realmente não sabemos ao certo porque crianças não gostam de ler. Mas eu sei, como pai do Lucca, de 8 anos, que ele ama bater bola, brincar de pega-pega e jogar videogames.

Com efeito, isso é indicativo suficiente do caminho que podemos (e devemos) trilhar para encarar o desafio de superar as atividades e incentivos tradicionais de leitura com crianças e desenvolver ações que despertem o amor à leitura.

Analisando os gostos por leitura

Apesar de todo o esforço que as escolas dedicam para atrair as crianças para a atividade de leitura, como prêmios, criação de cartazes e concursos, uma pesquisa recente, publicada nos EUA, apontou que esses, e outros supramencionados incentivos externos, têm pouca efetividade.

A editora Scholastic, responsável pela pesquisa “Kids & Family Reading Report” (Relatório sobre a leitura com crianças e pais), publicado no final de 2018, descobriu que a leitura por prazer (read for fun) vem caindo ao longo dos anos. Veja a tabela abaixo extraída do relatório, já em sua sétima edição:

Tendência de leitura entre crianças.
  1. Em azul mais escuro são representados os percentuais das crianças e jovens (entre 6-17 anos) que lêem frequentemente (lêem por prazer praticamente uma vez ao dia). De 2010 a 2018, este índice caiu de 37% para 31%.
  2. Em azul mais claro estão os leitores moderados (lêem por prazer até quatro dias da semana), que se mantém ao longo dos anos.
  3. Já os leitores esporádicos (crianças e jovens que lêem por prazer menos de uma vez por semana), em rosa, aumentaram de 21% para os 28% atuais.

Ademais, esses dados se tornam drasticamente preocupantes quando se analisa particularmente as crianças na transição entre os oito e nove anos. Antes de mostrar os índices, vale destacar que estamos nos referindo a idade em que os especialistas e a própria BNCC (Base Nacional Comum Curricular) apontam como a idade-limite para o processo de alfabetização. Em outras palavras, o processo de alfabetização deve estar com sua base solidificada ao final do 3º ano do Ensino Fundamental, pra que novas fases, com novos focos, aconteçam.

Isso me faz lembrar do meu Lucca e o seu amor à leitura (ou a falta de)… mas eu volto para falar o que fazer com ele mais adiante.

Então, nessa fundamental fase de transição, as crianças americanas de 8 e 9 anos responderam o seguinte sobre o prazer em fazer uma leitura:

Os gostos pela leitura declinam a partir dos nove anos de idade.
  1. A primeira coluna, à esquerda, indica a frequência de leitura. Entre os leitores frequentes (lêem por prazer entre 5 e 7 vezes por semana), o índice cai dos 57% para as crianças com oito anos de idade para 35%, aos nove anos.
  2. Na coluna do meio está representada a percepção das crianças sobre a leitura prazerosa, subdividida na percepção de que é “extremamente muito importante” (na linha azul) e “extremamente importante” (na linha rosa). Nesse caso, os índices entre as crianças de 8 e 9 anos caem de 65% para 57% e de 25% para 19%, respectivamente.
  3. Por fim, na terceira coluna, à direita, o prazer com a atividade de ler foi medido em duas variáveis: “amo/gosto muito” (na linha azul) e apenas “amo” (na linha rosa). O declínio no prazer com a leitura foi mais uma vez comprovado na transição dos 8 para os 9 anos de idade: 40% das crianças de 8 anos disseram amar a leitura frente aos 28% das crianças com 9 anos.

Analisando como formar leitores

Em seguida vieram os pais. De acordo com a pesquisa da Scholastic, três quartos dos pais relataram que desejam que seus filhos leiam mais por prazer e desenvolvam um amor à leitura. Mas como exatamente nós podemos contribuir com isso?

Embora possa não haver uma bala de prata nesse caso também, há algumas experiências cujas evidências são animadoras para as famílias que desejam incentivar as crianças a ler paralelamente aos esforços feitos na escola.

Uma importante referência nesse campo é o Prof. Daniel Willingham, do Departamento de Psicologia da Universidade da Virgínia. Willingham é autor dos livros “Por que os alunos não gostam da escola?” (Editora ArtMed) e “Raising Kids Who Read: What Parents and Teachers Can Do” (Criando crianças que lêem: o que pais e professores podem fazer).

A primeira coisa que pais e professores podem fazer é ajustar os objetivos pelos quais eles querem que as crianças leiam. Você acha que crianças de 8 e 9 anos, por exemplo, estão preocupadas com as demandas por maior alfabetização diante do desafio de emprego no século 21? Ou com notas maiores nos boletins escolares? Ou ainda com as médias gerais para os índices do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica)?

Esqueça! Pais e professores precisam dar um novo sentido para o desenvolvimento do ato de ler. Um sentido que tenha menos a ver com a escola e mais com uma vida bem vivida. Em vez de dizer as crianças que ler livros vai ajudá-los a tirar boas notas ou encontrar uma boa profissão, é preciso que pais e professores se unam em torno de um sentido para a leitura prazerosa como parte de um valor familiar maior: amar a aprender.

É dentro desse contexto que tento dizer ao Lucca (mas ao Lorenzo também, meu filho mais velho, com 12 anos), que a leitura os ajuda a aprender coisas novas. Seja ao ler uma nova missão lançada na tela no videogame seja na instrução para montar a bicicleta, a leitura deve ser valorizada explicitamente, de modo contínuo, para além do contexto da escola.

Como Willingham sugere, o objetivo da alfabetização, especialmente da leitura, não é a nota na prova. É incorporar nas crianças o valor da aprendizagem, no sentido de que a leitura é uma habilidade importante para a constituição de quem somos, do que fazemos e de como fazemos em relação a uma vida bem vivida.

O mundo digital e os desafios na formação de leitores

Colocar-se como exemplo de bom comportamento de leitura também é um modo de desenvolver o prazer pela… leitura.

Aqui em casa, por exemplo, devido a natureza do meu trabalho docente e de pesquisa, as vezes tenho que ficar à noite na frente da tela do computador. Sempre que emerge alguma situação de conflito com as crianças (“Agora acabou o tempo com o PS-4”, eu digo. No que eles respondem, “Mas você ainda está na frente da tela”), tento deixar claro para eles que estou usando o computador, o notebook ou o celular para ler, para aprender e para trabalhar.

Mas essa briga parece ser cada vez mais injusta, contra nós. Os dispositivos digitais competem agressivamente pelo tempo que as crianças usariam para ler e aprender, particularmente os aparelhos de telefones celulares. A educadora norte-americana Holly Braum, relata uma pesquisa feita pelo professor de inglês do ensino médio, Jarred Amato, entre os seus alunos.

A pesquisa corrobora aquilo que todos nós já desconfiamos: os telefones celulares foram indicados pelos alunos como o principal motivo para eles não lerem. Porém, mesmo diante dos desafios do mundo digital, ainda defendo, junto com o Prof. Willingham, que a melhor resposta é incutir o “valor familiar” do amor a aprender desde cedo, quando as crianças passam mais tempo com os pais.

Essa é uma lição que eu já havia aprendido com o filósofo pragmatista John Dewey, ao discutir, no meu livro, o seu projeto de uma Bildung americana para as escolas publicas nos EUA. O ponto é que, com o tempo, as crianças se tornam adolescentes e os adolescentes se tornam adultos, quando o aumento de autonomia e atividades sociais lotam os dias. Com nossos hábitos mais fixados nas rotinas e responsabilidades do dia-a-dia da vida adulta, incentivar a leitura pode se tornar uma batalha muito difícil.

Por isso, o Prof. Willingham aponta algumas dicas para criar o amor à leitura nas crianças:

  • Certifique-se de que as crianças tenham acesso aos livros: visite bibliotecas com frequência, deixe livros espalhados pela casa, no carro e até no banheiro;
  • Não controle a leitura das crianças: a tentação de “bater o pé” e impor uma contagem de páginas diárias não funciona; quadrinhos, graphic novels e livros abaixo do nível de leitura escolar também contam.
  • Envolva as crianças em uma rede de leitores: podemos introduzir os nossos filhos e alunos nas redes sociais através da criação de rede de leitores e fãs de livros que se conectam on-line.
  • Ofereça material de leitura inspirado em algo em que as crianças já estejam interessadas: revistas sobre o videogame favorito do seu filho, livro do seu YouTuber favorito, quadrinhos, comics etc.

Por fim, devemos lembrar que somos os maiores apoiadores dos nossos filhos e alunos diante dos desafios de desenvolver um amor pela leitura, a leitura prazerosa. As dicas acima deixam claro que funcionar simplesmente como críticos não funciona. Se o objetivo principal da leitura é o amor a aprender, então o interesse das crianças deve ser respeitado.

Sou pai do Lorenzo e do Lucca, fundador e editor na Poiesis, professor universitário na Unimar e autor do livro "Com Ítaca na mente: em busca dos sentidos do ensino"

Comentários(2)

    • Martha Brantes

    • 5 dias ago

    Que triste o resultado dessa pesquisa.

    Obrigada professor por compartilhar esses dados.

      • Beto Cavallari

      • 5 dias ago

      Olá Martha! Sim, essa pesquisa mostra algo preocupante em relação a transição dos 8 para os 9 anos, bem na idade-limite da alfabetização. Esse declínio do interesse na leitura prazerosa ou divertida dessa mulecada impõe grandes desafios aos pais e professores.

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