Blog

escutar_alunos_Poiesis

Escutar as necessidades, angústias e aspirações dos alunos é fundamental para que eles encontrem os sentidos da vida na hora de decidir sobre o futuro.

No último post, relatei uma experiência de aprendizagem baseada em cinco fases da estratégia de leitura colaborativa. Foquei em como essa estratégia expõe os alunos a textos desafiadores e melhora a compreensão com base nas habilidades exigidas pela BNCC.

Particularmente, na quinta fase da leitura colaborativa, o texto apontou para o desenvolvimento das seguintes habilidades:

  • resumir textos ajuda os alunos a articular sua compreensão em suas próprias palavras, e
  • tirar conclusões variadas sobre o texto, inclusive examinando as motivações do autor para a escrita, fazendo conexões pessoais com o texto ou respondendo a perguntas sobre o texto, ajuda os alunos a compreender o texto de modo profundo e significativo.

Posteriormente, vocês devem se lembrar que os alunos do quinto ano leram uma passagem do livro Caderno de Jazmin, na qual a orientadora vocacional Lillian Sensata encaminhou um aluno negro a não perseguir o plano de cursar uma Universidade, dizendo:

“Uma pessoa como você seria mais feliz preparando-se para o ensino técnico-profissional no ensino médio”.

Com efeito, a personagem principal do livro, a aluna Jazmin, força a situação e indaga a senhorita Sensata por que aquele aluno não deveria se preparar para cursar uma Universidade.

Assim, cumprindo as expectativas da quinta fase da estratégia de leitura colaborativa, os alunos do Bronx consideraram as consequências mais amplas das expectativas da senhorita Sensata e a crítica de Jazmin.

Estamos de acordo a respeito das cinco fases da leitura colaborativa como uma importante estratégia na alfabetização das crianças? Espero que sim!

Mesmo que não, vou usar o gancho do livro Caderno de Jasmin e debater, portanto, uma outra atividade tão importante quanto a leitura e a compreensão de textos: escutar os alunos.

Escutar as necessidades, angústias e aspirações dos alunos

Pois bem, a senhorita Sensata certamente desaponta e frustra o educador humanista ao pré-julgar o futuro educacional e profissional de um aluno negro, oferecendo-lhe um sentido para a sua vida sem bem escutá-lo.

O filósofo John Dewey já deixou claro qual é o primeiro problema na realização de uma educação para a sociedade democrática. Para o pragmatista, o[…] problema está em,

“[…] definir a natureza de um objetivo surgido de dentro de uma atividade, e não de fora”.

Aliás, na reedição desta obra-prima de Dewey, Democracia e Educação, que tive a satisfação de traduzir para a Editora Ática, em 2007, para a série Capítulos Comentados, o primeiro capítulo selecionado pelo professor Marcus Vinícios Cunha (USP/Ribeirão Preto) é justamente o capítulo oitavo do original, intitulado “Objetivos da Educação”.

Na atividade de escutar as necessidades, angústias e aspirações dos alunos, fazê-la democraticamente, esse é o ponto!

Por isso, deixemos o exemplo da orientadora vocacional Sensata de lado, pois tenho um outro relato importante para compartilhar com você. Quero falar sobre Tim Klein, ex-diretor de engajamento escolar e comunitário na Escola de Ensino Médio Medford, no estado do Massachusetts, nos EUA.

Vejamos, Tim Klein compartilha uma história de como a paciência e a inclinação para ouvir podem se traduzir em insights críticos sobre os alunos em suas buscas por sentidos de vida, pessoal e profissional.

Ele narra a interação com um estudante do ensino médio, chamado Marcus. Em uma de suas conversas, Marcus disse que seu objetivo profissional era se tornar um jogador profissional de videogames no YouTube (Sim, isso existe e meu filho Lucca, de oito anos, diz que pretende seguir essa carreira, inclusive já gravando vídeos, que guardamos em um arquivo offline).

Klein, experiente, não zombou dessa escolha, para muitos, irreal.

“Quando os adolescentes dão respostas aparentemente fantásticas, a atitude comum dos adultos é ignorá-los, descartando esses objetivos como desvinculados da realidade”, escreve ele.

Para ele, não era novidade escutar seus alunos adolescentes vocalizando aspirações estranhas e fantásticas. Por exemplo, ele conta sobre alunos que disseram que queriam se tornar jogador de futebol profissional (mesmo que não estivessem treinando futebol), ou um cantor ou músico (mesmo que não cantassem ou fizessem música); ou ainda ator de televisão.

Por isso, olhando mais atentamente, a ideia do Marcus não parece tão estranha assim, não é? Você sabia que alguns jogadores profissionais de videogame no YouTube chegam a receber milhões em dinheiro por ano para jogar o dia todo? Pois isso é verdade!

Mas, como educador profissional, Klein sabia que precisava investigar a situação de Marcus mais a fundo, para além do simples insight sobre as suas preferências por carreira.

Como resultado, descobriu que Marcus queria se tornar um gamer por causa do isolamento e do bullying que sofreu quando criança. Inicialmente, o jogo foi uma fuga. Porém, quando Marcus assistiu a um vídeo de um de seus gamers favoritos, no qual ele compartilhava a sua própria experiência com o bullying, a preferência pela profissão acabou se tornando algo natural, por que o fez sentir que pertencia àquele mundo.

Quando escutar abre novas possibilidades para o futuro dos alunos

Ao ir mais à fundo fazendo a pergunta fundamental, “por quê?”, Klein conseguiu decifrar o que fez Marcus decidir pela carreira de gamer. O motivo principal estava ligado a vontade de Marcus em ajudar os outros a se sentirem pertencentes a algo. Nesse caso, resumiu essa vontade através do videogame.

Acesse a página exclusiva dedicada ao lançamento do livro “Com Ítaca na mente: em busca dos sentidos do ensino”, do Prof. Beto Cavallari, PhD em Filosofia e Educação pela Columbia University na cidade de Nova York.

Com esse insight, Klein aconselhou Marcus sobre outras possibilidades, inclusive apontando para uma formação universitária que lhe proporcionaria uma carreira dentro desse mesmo sentido de vida:

  • faculdades com bons cursos de produção em vídeo e comunicação, e
  • empregos potenciais, como assistente social, psicólogo ou mesmo professor do ensino médio.

As escolhas motivaram Marcus.

“A mudança foi profunda; Marcus terminou seu último ano com as melhores notas de sua vida”, disse Klein.

No final das contas, Marcus optou por cursar uma faculdade, onde estuda produção de vídeo e psicologia. Em conclusão, Klein avalia que, muitas vezes, as escolas perguntam “o que” os alunos estão fazendo e ignoram o “porquê” por trás de suas escolhas.

Fazendo mais perguntas aos alunos sobre o sentido das coisas para eles é uma tarefa primordial aos educadores. As perguntas podem ser:

  • O que vocês fazem por diversão?
  • Quais esportes vocês jogam?
  • Que música vocês ouvem?
  • Quais são os seus passatempos favoritos?.

Com isso, os educadores podem abrir as portas para que os alunos compartilhem suas necessidades, angústias e aspirações com eles.

“Siga os interesses de um aluno e você descobrirá as pistas necessárias para entender suas motivações e desejos mais profundos e mais intrínsecos”, ele finaliza.

Escutar os alunos através da leitura colaborativa e da escrita de narrativas

No capítulo dois do meu livro, discuto um outro relato sobre o poder de escutar os alunos e o quão isso impacta em suas formações. Trago o caso do aluno Tony Mitchells, do quarto ano do Ensino Fundamental de uma escola do estado do Iowa, também nos EUA.

Tony apresentava dificuldades em acompanhar a carga de avaliações internas e externas. O aluno vinha de uma família circense e a professora Judith julgava que o seu atraso escolar era unicamente causado pela rotina familiar, que o fazia faltar demais às aulas. Foi quando apareceu a estagiária Pam na vida de Tony.

Pam desenvolveu uma atividade de leitura colaborativa que acabou atraindo a atenção de Tony, uma vez que o aluno se identificou com o personagem do livro trabalhado em sala de aula (Lembram da quinta fase da estratégia de leitura colaborativa? Um dos sentidos/propósitos é fazer conexões pessoais com o texto!). A partir dessa identificação externa, Pam influenciou Tony a escrever uma narrativa em forma de autobiografia, inspirada na leitura do livro.

A autobiografia se tornou a ferramenta criativa de Tony, na qual ele pôde:

  1. ultrapassar os limites da sua condição social,
  2. expressar suas necessidades, angústias e aspirações internas, e
  3. demonstrar suas habilidades de leitura e escrita, ausentes na maioria das avaliações escolares.

Como parte da estratégia de Pam, essa experiência de leitura e escrita possibilitou que ela visse e ouvisse as habilidades individuais do aluno, durante a atividade, ajudando-o a superar suas dificuldades e angústias com a aprendizagem escolar.

Realmente, que nos dediquemos sempre mais a ver e ouvir os nossos alunos, em nome dos sentidos do ensino para a vida democrática.

Com informações da Edutopia e Edsurge.
Sou pai do Lorenzo e do Lucca, fundador e editor na Poiesis, professor universitário na Unimar e autor do livro "Com Ítaca na mente: em busca dos sentidos do ensino"

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *